Da região do Mali temos vindo a descobrir uma tradição oral e musical plena de emoção e resistência. Tradição essa que vive de uma simplicidade expressiva, aliada à vivência de cada palavra pronunciada e cada nota executada – uma comunhão absolutamente mágica. Ahmed Ag Kaedy é uma figura popular na sua região natal, por vários anos mentor do grupo Amanar. Neste colectivo, Kaedy juntava músicos experientes e aprendizes, lado a lado. Um conjunto itinerante que se dedicava a actuações locais, mas que infelizmente se desintegrou deixando o seu fundador num período algo sabático. Isto até ao convite de Christopher Kirkley, mente por detrás da magnífica Sahel Sounds. Um encontro merecido que veio a resgatar o talento de um dos maiores intérpretes de folk tuareg nos nossos tempos.
Deste renascimento, resulta um conjunto de canções compostas a voz e guitarra acústica, reunidas num álbum chamado “Akaline Kidal”. A inevitabilidade do seu exílio, e as dificuldades normais adjacentes a tal mudança, moldam as estórias e as memórias desta poesia sonora em combustão lenta com um Sol ardente de fundo. Logo, a melancolia sensual das cordas, tomando e exigindo tempo próprio, transformando-se num transe desértico majestoso – para escutar de olhos cerrados. É música que reporta verdade e oferece uma dimensão quase espiritual, a quem a ela está disposto a receber tamanha oferenda.
Se alguma da música de origem tuareg mais celebrada nos últimos anos chegou cá pela electricidade dos Tinariwen, no caso de Kaedy, a poeira é mais rasteira e mansa, fazendo-se realmente descobrir de um certo modo enigmático. Um disco que apesar do seu registo caseiro num gravador de fita magnética, apresenta uma ressonância sonora de cada detalhe com brilho e mestria. Belíssimo. NA



