ZDB

Cinema

Alienating Resurrections

— um programa de Daniel Schmidt

Qua22.06.2221:30
Qua29.06.2221:30
Qua06.07.2221:30
Qua13.07.2221:30
Qua20.07.2221:30
Galeria Zé dos Bois


Hipnotismo ao Domicílio (Hypnotism at Home) -- 1927 -- Reinaldo Ferreira
A Dança dos Paroxismos (The Dance of the Paroxysms) --1929 -- Jorge Brum do Canto
Les Feuilles Chéant (Falling Leaves) -- 1912 -- Alice Guy
Mercy, the Mummy Mumbled -- 1918 -- R G Phillips
La Chute de la Maison Usher (The Fall of the House of Usher) – 1928 -- Jean Epstein
Os Crimes de Diogo Alves (The Crimes of Diogo Alves) – 1909+1911 -- João Tavares
Body and Soul -- 1925 -- Oscar Micheaux
O Facínora (The Scoundrel) -- 2012 – Paulo Abreu
Paris Qui Dort (The Crazy Ray) -- 1924 -- René Clair
O Fauno das Montanhas (The Faun of the Mountains) -- 1926 -- Manuel Luís Vieira
Kurutta Ippêji (A Page of Madness) -- 1926 -- Teinosuke Kinugasa

A última encarnação de uma série de filmes em curso sobre ressurreições – um programa de Daniel Schmidt (realizador de Diamantino e Palácios de Pena com Gabriel Abrantes). As cinco noites de exibição têm lugar na ZDB – um lugar próximo e querido ao coração de Daniel, e a base de origem de muitas das suas colaborações e colaboradores favoritos. Todas as noites, a ZDB aproveita ao máximo o seu adorável cinema no telhado – emparelhando um filme mudo português com um ou dois filmes mudos estrangeiros. Os filmes serão exibidos sem música, com a banda sonora dos ruídos de Verão e silêncios da vida do bairro.

Durante os últimos 15 anos, os meus sonhos recorrentes são aqueles em que encontro familiares mortos: pessoas aparentemente e repetidamente ressuscitadas, mas afastadas tanto de si próprias como de mim. Fico com sentimentos conflituosos de felicidade por me ser dada a oportunidade de voltar a ver vivas pessoas que amo, e também tristeza, frustração e medo de que este reencontro seja tão alienante. Esta é uma colecção de filmes que explícita e implicitamente dizem respeito a ressurreições alienantes. A maioria tem no seu centro as narrativas emocionais de pessoas que experimentam uma espécie de morte e uma espécie de renascimento. Enquanto alguns se debruçam sobre as suas mortes iniciais – a preocupação central é sobre os problemas e as possibilidades que os seus renascimentos trazem, tanto para si próprios como para os vivos que encontram. Estes são filmes povoados de fantasmas que muitas vezes carecem de motivações directas e estão atolados em confusão existencial, talvez em busca de identidade, ou talvez de liberdade da mesma.

Daniel Schmidt

 

 

PROGRAMA

QUARTA 22 JUNHO

Hipnotismo ao Domicílio (Hypnotism at Home) 1927
Reinaldo Ferreira (19min) sem intertítulos

Kurutta Ippêji (A Page of Madness) 1926
Teinosuke Kinugasa (71min) sem intertítulos

Tempo total 90min

 

QUARTA 29 JUNHO

O Fauno das Montanhas (The Faun of the Mountains) 1926
Manuel Luís Vieira (40min) (intertítulos em PT e EN)

Paris Qui Dort (The Crazy Ray) 1924
René Clair (67min) (intertítulos em PT e EN)

Tempo total 107min

 

QUARTA 6 JULHO

O Facínora (The Scoundrel) 2012
Paulo Abreu (27min) (intertítulos em PT)

Body and Soul 1925
Oscar Micheaux (93min) (intertítulos em EN)

Tempo total 120min

 

QUARTA 13 JULHO

Os Crimes de Diogo Alves (The Crimes of Diogo Alves) 1909+1911
João Tavares (30min) (intertítulos em PT e EN)

La Chute de la Maison Usher (The Fall of the House of Usher) 1928
Jean Epstein (63min) (intertítulos em PT e FR)

Tempo total 93min

 

QUARTA 20 JULHO

Mercy, the Mummy Mumbled 1918
R G Phillips (11min) (intertítulos em EN)

Les Feuilles Chéant (Falling Leaves) 1912
Alice Guy (19min) (intertítulos em EN)

A Dança dos Paroxismos (The Dance of the Paroxysms) 1929
Jorge Brum do Canto (45min) (intertítulos em PT e EN)

Tempo total 75min

Hipnotismo ao Domicílio (Hypnotism at Home)

Não posso fingir compreender o que se passa nesta loucura cinética de conjunto. Uma sucessão sem direcção de hipnotismos perpetrados por um Harold Lloyd parece ter sido feita na sua maioria, não tanto para induzir os sujeitos a várias acções, mas sim para os congelar em alvos estáticos a fim de serem alegremente esbofeteados e chutados na cara e no rabo. Há a sugestão de que o instigador esteja a realizar estas acções como um simpósio sobre como conduzir hipnotismos? As pessoas entram e saem de diferentes estados de consciência, mas persiste um clima consistente de confusão. Poderá ser uma sátira portuguesa das comédias americanas contemporâneas. DS

Kurutta Ippêji (A Page of Madness)

O meu entendimento é que Kinugasa queria que as audiências não tivessem contexto para este filme: recusou-se a usar intertítulos, tentou impedir um famoso Benshi de narrar o filme, etc. Assim, só vou oferecer estes fragmentos de contexto: a única impressão foi perdida durante 45 anos… encontrada no barracão de Kinugasa no jardim… a redescoberta suscitou uma reorientação da nossa compreensão do cinema radical precoce… obra-prima perturbadora. DS

O Fauno das Montanhas (The Faun of the Mountains)

Uma turista inglesa que acompanha o seu pai naturalista às Ilhas da Madeira, assusta-se quando descobre que o seu anfitrião camponês tem uma semelhança com a estátua de um fauno no seu jardim lá em casa. Enquanto o trio viaja para o interior da ilha para observar pássaros raros – a jovem mulher viaja para a sua própria mente. A paisagem sublime torna-se o palco de premonições infernais e alucinações míticas. Estas culminam em assassínios – primeiro nos seus sonhos, e depois na sua vida acordada, cada um deles desfeito por ressurreições. Imagens deslumbrantes de quedas de água, centelhas de demónios rodopiantes, e cartões de título únicos sobrepostos imbuem esta curta obra com qualidades de uma espécie de cartão postal assombrado. Provavelmente o primeiro filme de ficção rodado na Madeira, e certamente uma entrada muito precoce em filmes sobre a indústria nascente do turismo, que ligaria inextricavelmente a Inglaterra, Portugal, e as ilhas no século seguinte. DS

Paris Qui Dort (The Crazy Ray)

Cientista louco usa um raio louco para congelar Paris. Alguns habitantes permanecem animados. A anarquia e os bons tempos sucedem-se. O primeiro filme de René Clair, realizado no mesmo ano que Entr’acte: ambos pedras angulares fundamentais de qualquer que seja este género com que estou tão obcecado. DS

O Facínora (The Scoundrel)

Uma homenagem à era do silêncio: supostamente um filme amador perdido da vida real de Conrad Wilhelm Meyersick, um engenheiro alemão, feito durante uma viagem de negócios a Guimarães. Diz respeito a uma pequena aldeia e ao seu bem visto padre – um homem do pano durante o dia, e um agente da lei durante a noite. Até que uma noite ele sucumbe à sua luxúria por um dos seus paroquianos, faz um acordo com uma bruxa, e desencadeia uma maldição. Ressurreições para ter a certeza, mas para quem? DS

Body and Soul

A brilhante e diabólica estreia de Paul Robeson no ecrã. O filme inteiro é enquadrado como um pesadelo. O título diz tudo. DS

Os Crimes de Diogo Alves (The Crimes of Diogo Alves)

A versão de 1909 é a primeira narrativa de serial killer na história do cinema. Um verdadeiro crime relativo a Diogo Alves, um galego que aterrorizou Lisboa de 1836 a 1840, matando setenta pessoas. Ele assassinou muitas vítimas, atirando-as do icónico aqueduto de Águas Livres de Lisboa – de modo a fazer aparecer as suas mortes como suicídios. A versão de 1911 marca uma das primeiras remontagens, e certamente a primeira remontagem portuguesa. Juntos, partilham um punhado de tableaus e flurries de acções. Os breves filmes lêem quase como exercícios ou encenações de crimes que têm sido feitos como humilhação pública em jurisdições como a Tailândia, Coreia do Sul (pense em Sympathy for Mr. Vengeance, Memories of Murder, and Mother). 1841, Alves tornou-se o penúltimo criminoso a ser executado pelo Estado, já que Portugal se tornou o primeiro país (pelo menos no mundo ocidental) a abolir a pena de morte. A cabeça de Alves foi preservada e estudada por cientistas, numa tentativa de compreender a origem científica do seu mal. A cabeça permanece num frasco em exposição na Universidade de Lisboa, e é visitada por turistas. DS

The Fall of the House of Usher

Uma história que não deveria precisar de introdução, e que eu acho demasiado relacionável. A minha versão cinematográfica favorita do meu Poe preferido. O que será que ele teria pensado? Buñuel trabalhou como assistente de realização de Epstein, bem como co-roteirista – e mostra-o. DS

Mercy, the Mummy Mumbled

Bofetada de horror precoce na qual um pretendente tenta ganhar o consentimento do pai da sua namorada para casar. O pai – um químico experimental que concorda com o casamento se a sua próxima experiência resultar. O que ele quer dizer com “trabalha” e quais são as suas intenções gerais, permanece vago – mas parece vagamente filiado em trazer os mortos ou inanimados de volta à vida (ele é introduzido usando uma mistura para transformar uma pintura de um pato num verdadeiro pato). Para a sua próxima experiência, ele procura uma múmia egípcia. O pretendente, querendo impressionar o seu futuro sogro, compra um sarcófago a uma loja e contrata um estranho para fazer o papel da múmia, repleto de ligaduras e rosto branco. Criado na madrugada do cinema por um elenco e equipa, através da influente e controversa Ebony Films – esta é uma alcaparra selvagem, com algumas mordaças incríveis, incluindo o actor múmia a cavalgar involuntariamente o sarcófago pela rua abaixo, e mais tarde tendo as suas ligaduras sem lágrimas usadas como corda de fuga da janela da farmácia. Um elenco cada vez mais frenético e entrelaçado de personagens – que inclui dois egípcios que tentam recuperar artefactos roubados. A impressão é gravemente danificada – mas a degradação do nitrato cria momentos surrealistas não intencionais que entram em modo de febre total durante o clímax da ressurreição do filme. DS

Les Feuilles Chéant (Falling Leaves)

🍃 😭

DS

A Dança dos Paroxismos (The Dance of the Paroxysms)

Peças iguais, extasiantes e desoladas, fixam um tempo e um lugar indeterminados. Segue estranho e solitário cavaleiro que percorre grande distância para chegar à sua noiva, a filha aristocrática de algum lorde bem desembarcado e invisível. Inicialmente, por cansaço, e depois pelos encantos sedutores de uma banshe de floresta e das suas fadas dançarinas – o cavaleiro perde o seu caminho, ou encontra um novo? Primeiro falhando em adquirir o presente de casamento pretendido (planeou presentear a sua nova esposa com o Santo Graal!?), e depois falhando em regressar a ela atempadamente – acaba por se deparar com um fantasma sem rosto que é ostensivamente o seu fantasma. O choque e a tristeza que o matam também? Estes voos impressionistas de espíritos e emoções são tornados terrestres por um longo capítulo de abertura preenchido por aldeões com os quais o cavaleiro fica no caminho. O mais pungente é um marco cinematográfico precoce que capta o drama privado de uma jovem rapariga a comer os seus próprios macacos. Imagens incipientemente inventivas e erráticas, história e edição – trabalho de câmara rodopiante, tanto POV como desencarnado, sobreposições, paisagens de cabeça para baixo, miniaturas falsificadas subaquáticas, ecrãs divididos em três vias, ecrãs divididos em quatro vias, inovações de Abel Gance num orçamento muito limitado. Tudo isto fiado em conjunto por Jorge Brum do Canto, então com 19 anos de idade – que escreveu, editou, dirigiu, e estrelou esta fantasia. DS

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