Uma bateria é um elemento colossal, imponente e com diversas frentes de combate; pratos de várias camadas, vidas desfeitas entre tarola, bombo, timbalões e baquetas. João Pais Filipe emergiu numa máquina de percussão que atravessou fases jazzísticas de improvisação até à diversidade rítmica dos rituais tribais. Ao lado de Jonathan Uliel Saldanha, nos HHY & The Macumbas, o baterista multiplicou os braços sobre tambores frenéticos. Agora, chega com um disco a solo, em que a bateria sobe ao poder e se centra sobre nós.
O álbum homónimo de João Pais Filipe explora sem limites uma bateria incansável, repleta de gongos e instrumentos metálicos construídos por si, desdobra-os por camadas sonoras longínquas, texturas de pratos misteriosos, transpira as plateias com arritmias e tempos ímpares. Trata-se de uma busca inaudita por caminhos ritualísticos que se apertam por tons mecânicos, mas enigmáticas, traduzindo-se num tridente de faixas desvairadas e inquietantes. Linhas de tempo que cruzam vários cenários, encontros e desencontros repentinos entre estilos que pairam sobre o jazz a desafiar a electrónica de dança. João Pais Filipe chega por fim à ZDB com um motor de percussão capaz de agitar os corpos mais dormentes. Imperdível. JH



