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Lea Bertucci ⟡ Pedro Branco

Sex28.02.2022:00
Galeria Zé dos Bois

Lea Bertucci

Podemos com alguma razão desconfiar da sound art enquanto terminologia meio vazia que planta a prática “artística” do som no meio galerista como forma de legitimação pela alta cultura, mas não existe grande forma de o contornar ao falar de Lea Bertucci. E não existem razões para tal: exemplo clemente, como outros que felizmente ainda dão ao termo algum valor e sentido interno, Bertucci estabelece na abordagem ao som relações entre os “fenómenos acústicos e a ressonância biológica”. Bagagem conceptual que aqui se materializa na verdade, num trabalho que tem sempre procurado criar elo de cumplicidade entre as fontes de som — maioritariamente o saxofone alto e o clarinete baixo — e o espaço acústico que as envolve, e que nesse processo encaixa todo um lado humano que geralmente se dissipa na névoa da conceptualização. A sound art como parte importante — atestada no trabalho multifónico para museus ou sinergias com a dança e o teatro — mas limitada pelas fronteiras de uma obra onde a composição e a performance têm um peso fundamental. Vital.

Com a composição devidamente postulada em ‘All That Is Solid Melts Into Thin Air’, em esquiva aos sopros com uma escrita para cordas em contínuo com as premissas das formas e extended techniques que irradiam do fôlego solista, 2018 iluminou de forma mais ampla a sua visão com a edição de ‘Metal Aether’ pela NNA Tapes. Continuando um trajecto de interacção constante entre o espaço e o som que vem desde 2012 sendo explorado com a fé de grandes como Pauline Oliveros ou John Surman ‘Metal Aether’ culminou três anos de ofício em torno do saxofone e da fita com respectiva reverência em meios como a Pitchfork ou inevitável a Wire — com lugar na lista dos melhores discos desse ano. Das pirâmides Maias ou subterrâneos urbanos de ‘Metal Aether’ ao Marine Grade A Elevator em Buffalo para ‘Resonant Field’ seguimos a artista sediada em Nova Iorque a sondar novas abordagens ao saxofone com vista ao espaço circundante, reagindo com a reverberação desse silo magnânimo numa conjura harmónica que enreda a suspensão temporal de alguém como o Phil Niblock com a convulsão benigna do Evan Parker mais encantador de serpentes. Campos sensoriais de ruídos concretos, silêncios e notas espectrais. Imersiva, como o são as obras mestras do minimalismo, do drone ou da electroacústica — campos várias vezes geminados — sem se fixar em nenhuma corrente per se, é uma música de invocação, plena de possibilidades e muito humana. Aqui sujeita ao carisma do Aquário, após visita ao Barreiro no Out.fest de 2018. BS

Pedro Branco

Pedro Branco move-se na área da música improvisada onde já actuou com nomes como Rodrigo Amado, Wilbert de Joode, Lotte Anker, Hêrnani Faustino ou João Lencastre bem como no universo da música independente em Portugal onde colabora regularmente com nomes como Afonso Cabral, Marinho, Nádia Schilling ou Tainá. Na sua discografia contam-se vários projectos como co-líder tais como João Hasselberg & Pedro Branco (Clean Feed), EEL SLAP! e actualmente Old Mountain cujos discos saírão no início de 2020 pela Nischo Records. É também membro integrante de projectos como You Can’t Win, Charlie Brown ou Tiago Bettencourt onde participou na gravação do último disco. Em 2013 recebe uma menção honrosa durante a “Festa do Jazz São Luiz” para “Melhor Instrumentista” e em 2018 recebe o prémio Músico Revelação do Ano atribuído pela RTP/Festa do Jazz. Apresentou-se a solo variadas vezes tanto em Portugal como em Amesterdão onde residiu quatro anos, tendo sempre como principal preocupação manter um equilíbrio entre a total liberdade de processos e uma coerência estética actual, sempre através de meios que têm tanto de familiares como de contraditórios.

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