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Música
Concertos

Super Ballet com Yves Tumor ⟡ Império Pacífico

Sáb01.02.2022:00
Galeria Zé dos Bois

Yves Tumor

A performance como via de resistência. Ou sobreviver ao caos e transcender o mundano. Yves Tumor, o artista norte-americano nascido no Tennessee, mas ancorado em múltiplas geografias, tem gerado um pequeno grande universo de si, para si. Claro que esse viveiro encontra-se aberto a todos os que com ele ousam atravessar uma obra sempre penetrável e, no entanto, sempre esfíngica. Esse limbo entre um ponto reconhecível e magnético contrasta (e até complementa) com a ala obscura, propositadamente lacónica e plena de possibilidades, que o próprio cultiva – não por cisma, senão por inevitabilidade. A sua vida pessoal e biográfica serpenteiam, lado a lado, num expressivo trabalho musical que na última década tem vindo a ser descoberto.

Com um passado associado às expressões texturais e sónicas do noise e do industrial, o seu léxico tem vindo assumir uma forma transgressora e surpreendentemente aglutinadora. Serpent Music, editado em 2016, veio a torná-lo num nome de maior projecção. Um disco difícil de conceber, quase como um pequeno milagre, cuja natureza ambígua logrou tratar a experimentação mais pura com a mesma eloquência com que convocou a sensibilidade pop e algum vapor R&B. Conjugar focos distintos, encontrando um estranho equilíbrio de beleza, tristeza sem esquecer o grotesco e o desesperante. Cada um destes adjectivos atravessa Yves Tumor numa urgente chamada de desejo em despojar o mais intrínseco da sua essência.

Além de uma constante e dispersa presença a solo, também se fez notar em colaborações com James Ferraro, Star Slinger, Mikki Blanco, Croatian Amor e tantos outros. Pelo meio, assinou pela Warp e ofereceu-nos uma das melhores malhas da brilhante compilação Mono No Aware, apresentada pela PAN. A sua omnipresença em muito do que melhor se vai fazendo na arte sonora demonstra o calibre profundamente carismático que detém. When Man Fails You surge no mesmo ano do álbum há pouco citado, ampliando ainda mais o puzzle de tentar juntar as pistas em redor de uma persona em permanente mutação. A infinitude das peças mais ambientais, o uso terrorista de samples impensáveis e a elevação do ruído ao estatuto de respiro, fizeram deste disco uma constelação não menos importante no céu envenenado de Tumor. E como não referir Safe In the Hands Of Love, esse portento pleno de potenciais hits pop? Não é todos os dias que podemos escutar um punhado de composições soul iluminadas pela radiactividade de uma fonte energética fora do normal. Assim é imagem de um dos artistas maiores na nossa época, ainda em franco reconhecimento e tão desejado. É nos limbo das coisas que o podemos encontrar. NA

Império Pacífico

Luan Bellussi e Pedro Tavares fazem de Império Pacífico um dos projectos mais pertinentes da música feita por cá. Há muito por venerar no que têm vindo a criar. A clareza e subtileza da electrónica orgânica é inevitavelmente um meio de fervor e o duo faz desse retrato um habitat de visão panorâmica. As edições pela Rotten/Fresh e Alienação materializaram as imagens cristalinas e oceânicas, com uma vital dose de inteligência e coração. O mundo parece-nos mais pulsante com eles e soam vitaminados por uma imaginação sem barreiras e know-how suficiente em saber traduzir essas noções tão interiores e, às vezes, tão abstractas quanto toca a exprimir-las.

Apresentaram-se o ano passado no Out Fest e vêm agora à ZDB com o novo disco “Exílio”. Entre mãos temos mais um inspirado conjunto de composições angulares e melodias caleidoscópicas, de portas abertas para um objecto maravilhoso. Conta também com a participação vocal de Júlia Reis, das Pega Monstro, resultando num par de canções aveludadas, jóias para uma coroa de ouro. Quanto mais os escutamos, mais a certeza de que está tudo certo. De resto, um belíssimo warm up para a marcha de Yves Tumor. NA

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