Nos dias que correm, é inegável um estado de graça, criativo, crítico e mediático em torno do punk hardcore com vistas largas. Da consciência colectiva mais ou menos mainstream de Turnstile ou Knocked Loose, a indie darlings como Scowl ou Soul Glo até a um sentida comunhão local – dá vontade de invocar a ‘scene that celebrates itself’ dos tempos idos do shoegaze, sem o teor derrogatório da altura, para o sentimento vivido em concertos de Hetta ou Prado – que atravessa barreiras geográficas e geracionais com um efervescência que faz tempo não se sentia. Reflexo disso, de olhar atento, também a ZDB tem dado espaço e tempo vital a bandas nascidas no epicentro ou adjacentes ao movimento centrífugo e é nesse comprimento de onda que acolhe os noruegueses Hammok. Trio germinado ao arrepio em plena pandemia na (agora) agitada cena de Oslo que, com a edição recente do seu segundo álbum — When Does This Place Become Our Scene — na Sargent House assenta perfeitamente no retrato de família disfuncional da editora de Los Angeles ao lado de The Armed ou Botch. Com o repto lançado no nome do álbum, gritado furiosamente na abertura acutilante com The Scene, a música de Hammok palpita com toda a urgência e abandono do hardcore mais enraivecido ao mesmo tempo que vai descortinando a melodia que perpetua estas canções na memória. Com uma produção suja mas devidamente clara para não se afogar numa lama de distorção informe, When Does This Place Become Our Scene atira para a frente uma dúzia de feras, numa profusão de riffs cáusticos, ritmos que tanto encontram balanço como levam tudo à frente num mesmo passo, apontamentos electrónicos e letras incisivas assentes numa realidade que é tão da banda quanto facilmente reconhecível um pouco por todo o lado.
BS



