ZDB

Artes Visuais
Exposições

Sahara Malaise

— de Cristina Lamas

07.11 — 29.01.27
Galeria Zé dos Bois

Inauguração:
7 Novembro - 18H

Horário:
Segunda a Sábado
18H - 22H

'Sahara Malaise', Cristina Lamas

Na sua trajetória, Cristina Lamas terá adotado a viagem e a imersão em realidades diversas como estratégias fundamentais para o processo criativo, numa busca estética e formal que implica uma investigação profunda dos contextos sociais, históricos e políticos dos lugares visitados. Assim, cada novo território torna-se um ponto de partida para a construção de narrativas visuais únicas, onde o desenho atua como uma ferramenta de conexão entre o mundo exterior e o interior, explorando as relações entre o lugar e o indivíduo na memória.

Nos seus projetos mais recentes, a produção artística de Cristina Lamas concentrou-se em exposições como Marginália P21 (2019), Pororoca (2023) e Extinção (2024), todas estreitamente ligadas a processos de envolvimento profundo com as realidades amazónicas. A artista deslocou-se regularmente ao bioma amazónico, passando meses em países como o Brasil, Peru e Colômbia. Este contacto direto com os territórios permite absorver as dinâmicas sociais, culturais e ambientais, ao mesmo tempo que desenvolve uma prática sustentada que integra pesquisa, investigação e residências artísticas. Este mesmo olhar plural e interdisciplinar, que tem orientado a sua prática artística, levou a artista à Argélia no desenvolvimento deste projeto.

Sahara Malaise investiga as regiões afetadas pela intervenção humana no Sahara argelino. O título convoca o conceito de malaise (mal-estar) que, neste contexto, adquire um significado complexo, por envolver as relações de poder e as tensões históricas do território. A escolha do deserto e, particularmente, da região de Reggane foi determinada pelo legado dos testes nucleares nas décadas de 19601 — esta geografia traz à tona a destruição e a contaminação causadas por esses testes.

Através da metáfora do Sahara, o projeto não se limita a abordar o deserto como um espaço geográfico, mas também como um símbolo da vulnerabilidade dos ecossistemas diante da intervenção humana. Malaise transcende o mal-estar superficial, abrangendo dimensões psicológicas, sociais, culturais e ambientais que ainda ressoam nas estruturas pós-coloniais. Embora o deserto seja geralmente visto como um lugar de aridez, Sahara Malaise propõe uma visão mais complexa, destacando a resiliência da vida nesse ecossistema dinâmico, onde flora, fauna e comunidades humanas, adaptadas à escassez de recursos, mantêm uma relação profunda e contínua com a terra.

Utilizando uma diversidade de meios — como desenho, têxteis, fotografia, instalação, cerâmica e vidro —, a artista propõe uma investigação crítica sobre os desafios globais atuais, convidando a reconsiderar a nossa relação com o planeta e com as questões que o atravessam.

1Na manhã de 13 de fevereiro de 1960, França testou a sua primeira bomba nuclear chamada ‘Gerboise Bleue’ (Jerboa Azul) na área de Tanezrouft, no Sahara Argelino, a sul de Reggane. ‘Gerboise Bleue’ tinha uma capacidade de explosão de 70 kt, mais de quatro vezes a força de ‘Little Boy’, a bomba atómica lançada pelos EUA sobre Hiroshima no final da Segunda Guerra Mundial.

Cristina Lamas

Cristina Lamas é uma artista visual com uma abordagem multidisciplinar, que abrange o desenho, o têxtil, a fotografia, a escultura e a instalação. Embora explore diferentes meios e linguagens, o desenho mantém-se a base do seu trabalho, funcionando como uma prática contínua de pesquisa e reflexão, fundamental para a estruturação e aprofundamento das suas ideias. Ao apropriar-se de imagens, a artista atua segundo uma espécie de ‘sampling’ visual, recontextualizando-as de maneira a provocar novos sentidos e interpretações sobre dinâmicas de poder, memória e identidade.

A exploração de contextos culturais e geográficos remotos reflete-se no seu trabalho, que propõe uma reavaliação crítica do impacto da atividade humana, tanto a nível social como ecológico. Assim, as suas obras são o resultado de uma reflexão profunda sobre a memória ecológica dos territórios, a construção global de imagens e a memória histórica.

A sua investigação artística debruça-se frequentemente sobre as tensões entre o tempo profundo — correspondente à escala geológica de transformação do planeta — e o tempo humano, permitindo-lhe explorar a natureza não como um dado fixo, mas como um processo dinâmico e em constante transformação. O resultado é um trabalho de precisão e de ‘tradução’, no qual elementos do quotidiano interagem com significados mais subtis e profundos.

Entre as suas exposições mais recentes, destacam-se ‘Pororoca’, na Fundação Carmona e Costa (2022); ‘Mistifório’ (exposição coletiva), na Culturgest (2023); e ‘Extinção’, na Brotéria (2024). Foi finalista do Prémio de Desenho da FLAD (2023) e recebeu o prémio de Projeto Artístico Destacado na Drawing Room (2024). Recebeu bolsas da Fundação Oriente (1999, 2003) e da Fundação Luso-Americana (2001). O seu trabalho integra várias colecções, nomeadamente: Caixa Geral de Depósitos, Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, Fundação PT, Fundação Carmona e Costa, Fundação PLMJ, Coleção Manuel de Brito e Coleção Estatal de Arte Contemporânea.

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