Na sua trajetória, Cristina Lamas terá adotado a viagem e a imersão em realidades diversas como estratégias fundamentais para o processo criativo, numa busca estética e formal que implica uma investigação profunda dos contextos sociais, históricos e políticos dos lugares visitados. Assim, cada novo território torna-se um ponto de partida para a construção de narrativas visuais únicas, onde o desenho atua como uma ferramenta de conexão entre o mundo exterior e o interior, explorando as relações entre o lugar e o indivíduo na memória.
Nos seus projetos mais recentes, a produção artística de Cristina Lamas concentrou-se em exposições como Marginália P21 (2019), Pororoca (2023) e Extinção (2024), todas estreitamente ligadas a processos de envolvimento profundo com as realidades amazónicas. A artista deslocou-se regularmente ao bioma amazónico, passando meses em países como o Brasil, Peru e Colômbia. Este contacto direto com os territórios permite absorver as dinâmicas sociais, culturais e ambientais, ao mesmo tempo que desenvolve uma prática sustentada que integra pesquisa, investigação e residências artísticas. Este mesmo olhar plural e interdisciplinar, que tem orientado a sua prática artística, levou a artista à Argélia no desenvolvimento deste projeto.
Sahara Malaise investiga as regiões afetadas pela intervenção humana no Sahara argelino. O título convoca o conceito de malaise (mal-estar) que, neste contexto, adquire um significado complexo, por envolver as relações de poder e as tensões históricas do território. A escolha do deserto e, particularmente, da região de Reggane foi determinada pelo legado dos testes nucleares nas décadas de 19601 — esta geografia traz à tona a destruição e a contaminação causadas por esses testes.
Através da metáfora do Sahara, o projeto não se limita a abordar o deserto como um espaço geográfico, mas também como um símbolo da vulnerabilidade dos ecossistemas diante da intervenção humana. Malaise transcende o mal-estar superficial, abrangendo dimensões psicológicas, sociais, culturais e ambientais que ainda ressoam nas estruturas pós-coloniais. Embora o deserto seja geralmente visto como um lugar de aridez, Sahara Malaise propõe uma visão mais complexa, destacando a resiliência da vida nesse ecossistema dinâmico, onde flora, fauna e comunidades humanas, adaptadas à escassez de recursos, mantêm uma relação profunda e contínua com a terra.
Utilizando uma diversidade de meios — como desenho, têxteis, fotografia, instalação, cerâmica e vidro —, a artista propõe uma investigação crítica sobre os desafios globais atuais, convidando a reconsiderar a nossa relação com o planeta e com as questões que o atravessam.
1Na manhã de 13 de fevereiro de 1960, França testou a sua primeira bomba nuclear chamada ‘Gerboise Bleue’ (Jerboa Azul) na área de Tanezrouft, no Sahara Argelino, a sul de Reggane. ‘Gerboise Bleue’ tinha uma capacidade de explosão de 70 kt, mais de quatro vezes a força de ‘Little Boy’, a bomba atómica lançada pelos EUA sobre Hiroshima no final da Segunda Guerra Mundial.



