Instituição mais duradoura nascida nos ecos da revolução, verdadeira e maquinada, no ano da graça de 1977, a par de The Mekons, os holandeses The Ex têm vindo a cumprir, desde a sua formação em 79, as promessas que nasceram e morreram no fervor do punk, oferecendo-lhe os prefixos anarcho, pós, art numa travessia tão intransigente na forma de fazer as coisas como continuamente aberta à exploração. Alinhados com um activismo político ferozmente independente, sem cedências ao fundamentalismo agitprop, reflectem na sua música uma voracidade e sentimento de descoberta que transpõe as trincheiras militantes do punk mais tacanho e percepciona o Mundo como esfera de influência. Com Terrie Ex como elemento fundador de corpo presente até aos dias de hoje, regressam ao Aquário com a mesma formação sedimentada em 2009, com Katherina Bornefeld, Andy Moor e Arnold de Boer numa engrenagem precisa de 3 guitarras, bateria e voz.
Em tempos iniciais, ainda com G. W. Sok na voz – fincada até 2009 – profundamente embrenhados no espírito ambivalente entre a acção e o desespero da altura, nascidos da vivência comunitária dos squats e espaço de disseminação contestatária via graffiti nas paredes e zines monocromáticos, alinharam os destroços e força anímica que restava do punk numa música minimal e urgente, marcada pela pulsão do baixo, ritmos marciais, estalos de guitarra e farpas líricas entre o spoken word reivindicativo e o asco. Daí, foram mapeando outras linguagens, acolhendo escombros pós-industriais – Dignity of Labour, 1983 -, a hipnose avassaladora do noise – Pokkeherrie, 1985 – ou permutas com a improvisação e o jazz no expansivo Joggers & Smoggers de 1989, onde encontramos as presenças de Lee Ranaldo e Thurston Moore, muita percussão e sopros. Em conluio com esses princípios comunais e de abertura, têm revelado particular apetência para colaborações, tendo gravado no início da década de 90 dois mui recomendáveis álbuns com o violoncelista Tom Cora, desenvolvido uma relação frutífera com ICP, a inesperada simbiose com Tortoise e, num fascínio premente para com a cultura do Nordeste Africano, Moa Anbessa e Y’Anbessaw Tezeta com o falecido saxofonista etíope Getatchew Mekurya, num percurso marcado por mudanças de formação que nunca, mas nunca comprometeu os seus princípios fundadores e visão. Respeito, ’tá?
BS



