Filhos de um período de isolamento e incerteza causado pela pandemia, os Purelink provavelmente soariam de forma distinta noutro contexto histórico-social. Sem salas onde tocar e perante uma inevitável e complexa quebra no ritmo mundano, foi num apartamento em Nova Iorque que deram forma a um verdadeiro laboratório de sons infinitos. A constante efervescência apaziguadora que captam abriu-lhes um canal privilegiado para uma surpreendente experimentação molecular — estranhamente orgânica, tendo em conta o equipamento digital que utilizam. Ao reconfigurarem grande parte dos padrões estandardizados a que a esfera da música ambiental se vinha habituando, souberam criar comunidade, obra e identidade com apenas três discos na mão.
No entanto, e em abono da verdade, Tommy Paslaski, Ben Paulson e Akeem Asani não formam uma mera banda — pelo menos no seu sentido mais tradicional. Unidos por um vínculo de amizade duradouro e por percursos individuais sólidos, fazem dos Purelink uma base conjunta de partilha criativa. As múltiplas colaborações e edições em que têm vindo a estar envolvidos espelham não só a importância, mas também a urgência dessa comunicação coletiva. Sintonizando frequências deixadas pelo catálogo da Basic Channel, diluem ecos dub, melodias shoegaze e alusões house em meio-tempo, construindo uma linguagem própria.
Esse labor de tratar o som como matéria-prima tem conhecido novas etapas, disco após disco. O mais recente, Faith, abre uma página inédita, mais ampla e ambiciosa do que nunca. Ao convidarem Loraine James e Angelina Nonaj para emprestar voz a uma tapeçaria sonora que já cunharam como sua, expandem o seu universo estético sem abdicar da identidade construída. Ainda que a presença vocal possa suscitar alguma relutância inicial — sobretudo face aos trabalhos anteriores e ao risco de ceder a formatos mais convencionais — é a viagem astral que continua a fascinar os instintos dos Purelink. E com eles, seguimos.
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