Auto-proclamado “Sir” porque assim o pode, este genuíno globetrotter de mundos reais e imaginários regressa a Portugal na senda do lançamento de ‘Hillbilly Ragas’ pela Drag City. Oriundo das paisagens amplas de Phoenix, no Arizona, Bishop foi durante quase três décadas um dos três vértices dos Sun City Girls, ao lado do seu irmão Alan e de Charles Gocher, até a morte prematura deste último em 2007, deixando no seu encalço toda uma forma de criar até então inaudita, num caleidoscópio pan-global que tanto arrancava da poeira da música norte-americana mais primordial, seja ela blues ou jazz, como se deixava contaminar pelos rituais, escalas, ritmos de músicas e linhagens das mais diversas latitudes – da devoção do Sudeste Asiático ao batuque da África Central, com todos os pontos cardeais entre estas – num acto libertador alinhado com todo o tipo de esoterismos, misticismos, um sentido de humor absurdo e surreal e uma constante capacidade de reinvenção e escape, abrindo caminho a uma legião de weirdos e exploradores dos confins. A solo, invoca para a guitarra, maioritariamente acústica, toda essa visão plural, encanto pelo desconhecido e capacidade de conciliar mundos aparentemente dispersos num percurso que partindo dos retratos, já de si amplos, da American Primitive de John Fahey – ‘Salvador Kali’, seu disco de estreia foi lançado na Revenant deste último, e faz todo o sentido – se abstrai de coordenadas e cronologias estanques para daí erigir novas realidades. Ao longo deste tempo, e paralelamente a colaborações com nomes como Bill Orcutt em duo ou Ben Chasny e Chris Corsano nos Rangda, foi promovendo em discos como ‘The Freak of Araby’ ou ‘Oneiric Formulary’ todo o tipo de cruzamentos bravos e respeitosos passíveis nas seis cordas, numa espécie de folclore mundial que tão devedor do balanço do surf rock ou do fingerpicking mais hipnótico como do lirismo da música egípcia ou das ragas indianas. ‘Hillbilly Ragas’ escancara e ao mesmo reduz, não sem alguma piada, essas mesmas intenções a um princípio por si só meio absurdo mas com um fundo de verdade – e os tratados hillbilly de Henry Flynt abriram uma panorâmica imensa sobre o termo – num disco que palpita com esse eterno sentido de descoberta que não esquece as suas raízes fundadoras mas escapa a actos de reverência ou ao turismo casual, num processo de revelações que nunca força a justaposição, mas encontra o caminho natural para encontrar sentido na sua pluralidade.
BS



