Ao terceiro álbum, Maria BC conseguiu reunir um sentimento de fragilidade com uma certeza dura, quase intransigente. As suas canções tanto são frágeis como assertivas. Sem que exista realmente um sentido de equilíbrio de forças, não é bem isso. É algo que surge por necessidade de olhar para o mundo, seja de uma forma micro, concentrada em si, ou macro, deslocada para uma ideia de controlo das máquinas, pouco ligada à ficção científica, mais a uma certa ideia pós-industrial, revitalizada para os dias de hoje. Ao ouvir Marathon pensa-se muito em Bruce Springsteen. Nebraska, claro, mas não só.
Não há aqui novidade. No álbum anterior, Spike Field, também editado na Sacred Bones, em 2023, havia indícios deste potencial. A surpresa de Marathon é como preenche tantas coisas, como Maria BC consegue ligar intimidade a uma dor geral, como consegue fazer de um cinzento barulhento todas as cores – e todas elas importarem – e de como isto oscila entre folk, rock ligeiro, indie norte-americano 90s, sem fazer bandeira de qualquer uma delas. Marathon é discreto na forma como chora por este presente, de como desespera por um futuro. Não é um cry for help, porque não lamenta a sua existência, é um teste ao estado das coisas de hoje. E, como tal, não tem medo de um dia ser posto à prova ao teste do tempo. É provável que sobreviva.
Maria BC traz a Lisboa estas canções que servem bem para uma banda-sonora de 2026, numa altura em que, especulamos, se comece a celebrar o seu álbum como um dos melhores do ano. Em Marathon cabe todo o mundo de agora, as nossas incertezas, insatisfações e, também, tudo aquilo que está a faltar.
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