Improvisador, compositor, escritor e trompetista de virtudes infinitas, Nate Wooley tem sido ao longo deste século um dos mais afamados, inconformistas e, até mesmo, visionários artistas a operar numa cartografia irrestrita que, partindo do território já de si amplo jazz e da improvisação, se tem espraiado por paragens desligadas desse cordão umbilical, como a composição moderna, drone ou noise. Sempre com a mesma verve e sede exploratória, avançando a tradição do experimentalismo norte-americano para os dias de hoje. Da presença em formações como o Elliot Sharp Aggregat ou Ingebrigt Håker Flaten New York Quartet, ao trabalho com artistas tão díspares e imponentes como Anthony Braxton ou Éliane Radigue, a um sem número de colaborações de grupo mais ou menos ad-hoc a um trabalho a solo que tanto passa pela criação solitária no trompete, num tratado de lirismo e técnicas que rompem com a sua utilização canónica, como pela escrita de peças para ensembles como Apartment House ou Yarn/Wire e no processo inverso como intérprete de de Sarah Hennies e Christian Wolff, há todo um mundo a acontecer. Em Henry House, álbum em nome próprio lançado no ano transacto na Ideologic Organ, curada por Stephen O’Malley, Wooley deixa de lado a interpretação, imaginando uma longa travessia em cinco partes, nascida a partir de textos próprios, que cristaliza a natureza duracional do seu trabalho contínuo com o song cycle hipnótico do Seven Storey Mountain numa correnteza de vozes, piano, vibrafone ou sopros. Com uma ligação já longa e fortemente acarinhada a este país, com vários discos na Clean Feed e Creative Sources e colaborações com o Red Trio ou Hugo Antunes, Wooley regressa ao palco da ZDB para uma aparição a solo e num formato que lhe tem assentado bem ao longo desta trajectória: o duo.
Para além do encontro com outros instrumentos como a guitarra — com Joe Morris e Chris Forsyth —, saxofone — Ken Vandermark e Ivo Perelman — ou percussão — Paul Lytton -, Wooley tem também revelado apetência e engenho num binómio de trompete, em particular com Peter Evans e Taylor Ho Binum, e é nesse mesmo formato que se junta nesta noite, em pé de igualdade e após um contacto em 2024, postulado em Reuma a João Almeida. Figura ainda jovem e já com marca indelével no panorama do jazz e da improvisação do agora, igualmente apto a galgar trincheiras para açambarcar o noise Hocus — e actos fusionistas — Peachfuzz — num trajecto que se tem construído com um conhecimento vasto das técnicas, potencialidades e história do instrumento e faz por lhe encontrar novas formas e maneios.
BS



