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Living Room x ZDB: mu tate ⟡ Violet

sex09.10.2622:00


mu tate
Violet

mu tate

Se nas últimas décadas o termo ambient se consolidou, em grande medida, graças ao trabalho visionário de Brian Eno e ao reconhecimento mais amplo da sua obra, as múltiplas interpretações que se seguiram reconfiguraram as suas premissas. Na aurora do milénio, Fennesz, Jan Jelinek, Gas ou Tim Hecker levaram esse estado de espírito ao limiar de expressões cada vez mais demarcadas pela exploração textural e pela procura da sinestesia. Das visões caleidoscópicas dos discos da Basic Channel ao filtro distópico de Burial, entre tantos outros, a dimensão sensorial intensificou-se e expandiu-se em múltiplas direções. Menos cirúrgica e mais artesanal, a nata do género aglutina hoje memórias da cultura pop, impressões do quotidiano e uma natureza orgânica, quase tão espontânea quanto incontrolável — o que torna tudo mais vívido do que nunca. E, em pleno 2026, não faltam exemplos da qualidade exploratória que reina nestas frequências.

O produtor mu tate é uma peça-chave para compreender este momento. Partindo das heranças documentais e musicais da sua família, grande parte do seu trabalho gravita em torno da ideia de resgate temporal, cruzando-a com a matéria sonora que diariamente nos rodeia, muitas vezes sem sequer nos apercebermos. Trata-se de um processo imersivo de dissolução das formas, que acaba por transformar até a própria experiência de escuta. Life of mu, editado em abril passado, revela desde logo uma paleta alargada de dinâmicas, vagamente mais adjacentes, num estado híbrido com beats dissimulados, integrados numa já habitual viagem aquosa cuja capacidade de surpreender permanece intacta.

Por outro lado, as ligações a nomes como Space Afrika, Racine ou NEXCYIA, bem como as residências na plataforma de webradio NTS, demonstram a presença constante e simbólica deste produtor originário da Letónia, mas radicado em Berlim.

Numa época marcada por uma intensa e controversa discussão pública em torno da IA e dos riscos criativos que dela decorrem, mu tate é, possivelmente, capaz de assinar a música mais humana do nosso tempo. De braços abertos à inquietude, à exploração do erro e à imprevisibilidade com que esta se manifesta. Pura meditação fluida, na sintonia certa – e ao alcance de todos.

NA

Violet

Na sua cidade natal, Lisboa, Violet é uma figura multifacetada no panorama da música electrónica, contribuindo para a cena local sob vários ângulos. Como cofundadora da estação de rádio online Rádio Quântica, residente no Planeta Manas – o principal espaço DIY de Lisboa – e na rave queer mina, o seu trabalho representa uma expressão ponderada da história política da dance music, transmitida tanto através da sua voz como da sua música.

O seu portfólio de produção inclui inúmeros EPs a solo e colaborações com artistas como Ariel Zetina e ELLES, a par de remixes para nomes de referência da música de dança, tais como Matias Aguayo, Steffi, Teto Preto, Kim Ann Foxman e Josh Caffe. O ano de 2019 marcou um marco com o seu álbum de estreia Bed Of Roses, lançado pela Dark Entries, seguido de mais dois LPs: um lançamento de arquivo em 2020 e Transparências (2022), tendo este último recebido o prémio de melhor álbum de música electrónica da Associação Alemã de Críticos.

Paralelamente, criou a sua própria editora – a Naive. O EP de estreia da editora, Togetherness, causou grande impacto: a Resident Advisor considerou-o uma das faixas da década, a par de outro clássico da Naive, «Devotion», de Eris Drew & Octo Octa.

Tendo agora atingido o seu 20.º lançamento, a Naive tem ajudado a dar a conhecer ao mundo a música de artistas sub-representados, desde Hassan Abou Alam a Ilana Bryne ou Black Cadmium.

Como DJ, Violet cria sets que refletem a sua filosofia de produção, misturando ritmos de outro mundo, techno imaginativo, mutações acid, jungle e muito mais, de uma forma que parece simultaneamente intuitiva e complexa. As suas contribuições em mixes incluem séries como Beats In Space, Dekmantel, Mixmag, DJ Mag, Crack, Groovemag, The Ransom Note e Phonica. A sua presença na rádio inclui participações na BBC, NTS London, The Lot NYC e uma residência mensal na lendária Rinse FM há vários anos.

A sua agenda de atuações levou-a a alguns dos locais e eventos mais interessantes da Europa, incluindo festivais como o CTM, Unsound, Dekmantel Selectors, Berlin Atonal, Primavera e Sónar, e discotecas como o Fabric, Bassiani, De School, Nitsa e Berghain/Panorama Bar. Para além da Europa, realizou várias digressões pelos EUA, fazendo aparições repetidas em instituições como o Smartbar de Chicago, o The Stud de São Francisco, o Floyd de Miami e o Good Room de Nova Iorque. Nos últimos anos, tem vindo a expandir o seu alcance com digressões que passaram pelo Brasil, Egito, China, Índia, Japão e Austrália.

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