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Mike Tyson’s Worst Nightmare

— de Francisco Corrêa

23.05 — 31.08.26

Inauguração: 23 de Maio de 2026

Horário:
Segunda a Sábado
18H - 22H

Na Livraria Zé dos Bois, Francisco Corrêa apresenta uma instalação que é, ao mesmo tempo, a última memória de uma vida e o primeiro gesto de uma narrativa por montar. A obra integra um projeto mais amplo que encontrará a sua forma completa no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, no âmbito da parceria entre as duas instituições.

No centro da instalação, pombos e setas desenham um instante suspenso, como um jogo que alguém parou a meio. A cena não se move, mas pulsa na tensão de um desfecho por cumprir. O espetador, que ali chega sem aviso, torna-se testemunha muda desse fragmento — uma memória congelada que já não lhe pertence, mas que o convoca. É o território daquilo a que Ana Pérez-Quiroga chama «pós-trauma»: a empatia que nos faz sentir a dor de quem não conhecemos, atravessada por objetos que carregam a vida de um desconhecido.

Citando António Lobo Antunes, a peça pergunta em silêncio: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte? A resposta talvez não esteja nas formas, mas na maneira como a memória se agarra a um punhado de figuras — os pombos, as setas, o título que evoca um pesadelo alheio — e resiste ao esquecimento. Há objetos que se tornam símbolos, que performatizam a vida de quem já não pode falar. Aquilo que é íntimo e irrepetível torna-se, por momentos, um território comum.

Se a exposição que virá se abre com um baú — o gesto que despoleta um percurso feito de tesouros, armadilhas e fragmentos biográficos —, a instalação agora apresentada na Livraria Zé dos Bois mostra o seu avesso: uma memória final, a lembrança derradeira de uma personagem que só a ficção podia salvar. Entre a crónica e o jogo, Mike Tyson’s Worst Nightmare convida a recordar, no sentido que Eduardo Galeano devolveu à palavra: re-cordis, voltar a passar pelo coração.

Tomás Longo

Francisco Corrêa

Francisco Corrêa (1999) nasceu em Lisboa, onde atualmente vive e trabalha. Licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

O seu trabalho tem-se focado no diálogo entre a pintura e a escultura, a realidade e a ficção, construindo narrativas cujas realidades são parcialmente reconhecíveis, em oposição a ficções que são propostas por um certo surrealismo. Como memórias que, a cada tentativa de serem resgatadas, perdem nitidez, ganham novos significados. Procura criar um universo visual que, sem pretender ser sério, é ao mesmo tempo sofisticado e inocente. Essas memórias, algumas enraizadas na infância, outras totalmente imaginadas, são pedaços de uma realidade disfarçada.

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