Quase 50 anos passados e com toda uma história fractal de mutações a partir das vontades do punk, as impressões sacadas à cartilha post desse espírito encontram, ainda hoje, pertinência e assunto fora da câmara de eco do tribalismo polirrítmico, do minimalismo funk e da dissonância. Mesmo que minimalismo, polirritmia e dissonância sejam três vectores fulcrais nesta música, este quarteto nova-iorquino evolui muito para além da mera mimese da ginga e/ou psicose de Liquid Liquid ou This Heat para um estado anímico-físico que, reconhecendo as revoluções até aqui – de US Maple a Liars ou Battles – não é senão mesmo do Agora. Suspensas numa instrumentação, pouco surpreendente à partida, de bateria, guitarra e sintetizador, as breves canções de YHWH Nailgun tomam o pulso rítmico imaginativo de Sam Pickard como força vital para abancar espasmos de guitarra, texturas vítreas de sintetizador, pulsões de graves e a voz com grão, como quem exalta a revolta do cansaço, de Zack Borzone. Após um par de EPs na Local Ramp e todo um burburinho crescente que daí surgiu – alimentado por actuações catártico-físicas – lançaram na AD93 o seu álbum de estreia e aí assentam mesmo bem ao lado de Moin. Apesar das óbvias diferenças, existe em campo de trabalho comum, que sublimando o ritmo, ignição para movimentos polirrítmicos entre a dança e a queda, finta princípios base do rock e do punk numa matéria descarnada, reduzida ao essencial, e que vai encontrando forma de revolver elementos familiares em algo novo e cativante. Nada mau.
BS



