Para lá do efeito etéreo-Julee Cruise no mais recente álbum de Ana Roxanne, Poem 1, existe uma constante sensação de som a fluir numa direcção em cada canção, ao longo das canções. Como se tudo o que Ana Roxanne cantasse, melhor, tudo o que acontece antes, durante e depois da sua voz fosse um rio a fluir, um movimento natural, com ritmo próprio, imparável. Essa sensação existe na Ana Roxanne de 2026, a música continua, perdura, para lá do fim da canção, do álbum. É uma sensação que vence aquilo que se ouve.
Sente-se, ouve-se, como eterno. A nova-iorquina já tinha feito álbuns bonitos, mas a Ana Roxanne que existe nestas canções conseguiu algo difícil, criar sons, sequências de sons, que vencem a saturação do tempo, do presente. Um disco para sempre? Ouve-se como tal. Um disco para acabar com todos os corações partidos? Todas as tristezas, sedimentá-las? Canções para agonizar a agonia? Talvez, depende de onde se ouve, o que se ouve.
Poem 1 eterniza-se a si mesmo, em constante contemplação; ouve-se a si mesmo e, por isso, manifesta em si essa fluência, como se também estivesse algo incrédulo que tudo isto estivesse a acontecer. Já Ana Roxanne, está serena, certa do caminho, entre uma tristeza para a qual não há palavras, e um desejo que uma dor acabe sem quebrar com essa continuidade. Parece antagónico, não o é, são as dores, incongruências, de fazer um álbum sobre vida, com vida. Poem 1 respira e nós respiramos com ele. Ana Roxanne tomará conta de nós quando subir ao palco.
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