O pós-vida ainda encerra os últimos grandes segredos da humanidade, facilitando, se acreditarmos no enorme vazio, a passagem a quem para lá vai. A tarefa mais complicada recai sobre quem cá fica, encarregado de suportar o peso da ausência e preservar o legado. Quando Stepa J. Groggs partiu em 2020, RiTchie e Parker Corey tornaram-se garantes de continuidade do trabalho que começaram os três com Injury Reserve, grupo de Phoenix, Arizona, que fugiu a toda e qualquer tentativa de enclausuramento musical entre Live From The Dentist Office (2015) e By The Time I Get To Phoenix (2021).
De exploradores dos limites da canção rap (associados ao “jazz rap” de A Tribe Called Quest, De La Soul e dos restantes Native Tongues) passaram a verdadeiros investigadores sonoros em causa própria (usando matéria-prima de Black Country, New Road, black midi, The Fall, Brian Eno ou King Crimson para se perderem nas entrelinhas). No disco final de IR, o primeiro e o último depois da morte de Groggs, o continuum experimental, surrealista, denso e abstrato (onde tanto cabem Shabazz Palaces como Death Grips na montra) foi honrado numa tempestade sónica feita de estilhaços, camadas e performances intensas de todos os intervenientes, esfumando-se em “Bye Storm”, faixa que encerra o alinhamento e se liga directamente a “Double Trio”, o single inaugural da dupla que ficou. Nesta nova formação, RiTchie saiu detrás da cortina de fumo e voltou a reclamar de peito cheio o seu lugar de rapper (mesmo que o convencional não seja algo que lhe interesse minimamente).
Desde 2023, By Storm procurou (entre detritos descompassados) a lua que banhou King Krule em “Zig Zag”, encontrou luz numa cacofonia jazzística que remete para as explorações mais free e electrónicas de Flying Lotus em “Double Trio 2”, aterrou na área espiritual de “Soft Landing” de billy woods & Kenny Segal com “In My Town” e, tal como mencionado na caixa de comentários do Genius, explorou em “And I Dance” aquilo que bem podia ser um universo alternativo onde Jay-Z e Kanye West (da era Watch The Throne e Yeezus) ainda faziam música juntos.
Aventureiros desde a primeira aparição, a capacidade de expor emoção de uma maneira tão crua e honesta continua a ser uma das suas grandes armas. Com o selo da deadAir Records (casa de Jane Remover e dazegxd), My Ghosts Go Ghost, título do álbum de estreia a dois, conta apenas com uma participação (woods) e marca o início de mais uma jornada do lado de cá de um dos duos que melhor tem sabido adicionar credibilidade a esse vasto léxico do (spazz) rap não-comercial e vanguardista.
AR



