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Música
Concertos

Bola de Cristal

— c/ Ron Morelli ⟡ Borboleta Andorinha ⟡ DJ Fantasia

Sex07.02.2022:00
Galeria Zé dos Bois

Habitualmente mais laudado, com uma ponta de razão, como cabecilha da influente L.I.E.S. – editora que para o bem e para o mal veio ditar a tendências e rupturas da música de dança ao longo desta década – é inegável uma ligeira amnésia colectiva em relação à sua posição de artista no meio da enxurrada de lançamentos da sua casa. Na verdade, as linguagens propaladas pela editora, por entre os discos essenciais e as inevitáveis redundâncias de um catálogo tão extenso, estão intimamente ligadas a Morelli e à sua visão muito particular e amplamente discutida, responsável por trazer para a linha da frente das pistas de dança as herança do industrial, do noise, do mosh pit e de uma atitude muito fuck you e DIY informada pelo passado hardcore nos Devola. Ainda assim, aquelas edições inaugurais onde se encontrava o (entretanto) clássico ‘Dog House’ dos Two Dogs in a House com Jason Letkiewicz aka Steve Summers estão bem mais próximas da crueza jackin do house original do que do niilismo de dentes cerrados das edições em nome próprio, o que revela uma vivência na pista, mesmo que na sombra dos reflexos da bola de espelhos.

Com ligação forte à Hospital Productions de Dominick Fernow – Prurient, Vatican Shadow ou Rainforest Spiritual Enslavement – num alinhamento de mentalidades, o produtor de Brooklyn – entretanto sediado em Paris – tem por lá o grosso da sua obra em nome próprio, iniciada com ‘Spit’ em 2013. Oito variações de electrónica rafeira e/ou opressiva, entre o sludge industrial, percussão metálica, soluções enviesadas de house, manipulações de fita carcomida e uma paranóia premente que espelha o limbo entre o torpor e o medo da vida na cidade. Experiências continuadas com ‘Backpages’ ou ‘Disappearer’ onde uma misantropia masculina gravita continuamente entre a dança com Doc Martens e a reclusão social = techno no vermelho e drones desoladores com os vários pontos de paragem entre eles. Um clamor que se revelou mais contido em ‘A Gathering Together’, próximo de algumas aventuranças menos abrasivas de Aaron Dilloway, Failing Lights e restante eixo noise americano da Hanson ou Chronitic Sound, e se expandiu já este ano no muito recomendável ‘Man Walks the Earth’. Já distante dos detritos urbanos do passado, faz-se de uma maior introspecção, descartando as batidas marciais e o ruído tóxico por uma clareza de processos ainda esquivos e ao abandono mas mais devedores do trabalho de Laurie Spigel ou Daphne Oram no BBC Radiophonic Workshop, das visões de Tod Dockstader e da gravidade necessária para pairar sobre os abismos destes tempos conturbados. BS

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