Trata–se de comunicar a inquietante estranheza da língua. A voz emanada do amplificador carece do timbre corpóreo distintivo da voz humana natural. A partir dos fragmentos do sentido, é precisamente no maquinismo, num ponto de ruptura, que se formula então, de súbito, a nostalgia da comunicação.
Um momento humano irrompe num lampejo, o sujeito inteiro é por meros momentos encontrado quando o olhar localizou a voz e a devolve ao corpo.
É com estas bonitas palavras que NU NO, ou Nuno Marques Pinto, expressa a natureza de ‘Canto Ventríloquo’. Título certeiro, e muito à imagem do seu criador, para este seu novo álbum que é apresentado na ZDB 8 Marvila no dia 17 de Maio, na sequência de uma residência artística a ter lugar nesse mesmo espaço entre 22 de Abril e 7 de Maio. Actor, performer, rádiotransmissor e músico calejado e carismático, Nuno Marques Pinto tem rasto de trabalho longo e focado, entre a passagem pela companhia Escola da Noite e a fundação do Teatro Marionet, ambas em Coimbra, performances com artistas como Jonathan Uliel Saldanha ou Alexandre Estrela, peças para rádio e actuações ao vivo, tanto a solo como, mais recentemente, na banda Nu No e o Resto. Seguindo-se a registos como ‘Turva Lingua’ ou ‘Invenção Única’, este novo álbum de NU NO, com edição pela francesa La République des Granges, continua o seu processo de disrupção das lógicas canónicas e formais da linguagem, onde o corpo se faz voz para daí assumir uma multiplicidade de significantes e significados, sob a forma de repetições obsessivas, urros, palatos rítmicos, processamento, corte e colagem, canto ou declamações com tanto de Alan Vega como de Ghédalia Tazartès no espírito, mas incorporado numa realidade, ou múltiplas realidades, muito sua.
BS



