Presença genuinamente inspiradora nestes tempos, XEXA reimagina o mundo tal como se nos apresenta. Uma espécie de magia apaziguadora, surge no catálogo da Príncipe Discos como uma viragem inesperada para territórios siderais de infinita transformação. Reflete a necessidade de ir além da superfície e do tangível, sem nunca esquecer as raízes. Com mais energia quântica do que músculo suado, a artista lisboeta, de ascendência santomense, encontra interseções inesperadas na música contemporânea. Um astro global cujo percurso evoluiu do estudo da ourivesaria para a arquitetura do som — e o que têm em comum? O ato de depurar a matéria bruta que se tem em mãos.
A mixtape Calendário Sonoro 2021 surgiu como um enlevo vindo de outro tempo e lugar: um rito em que se convocam múltiplas vozes e diversas linguagens estéticas, diluídas em canções aquosas que percorrem canais escondidos nos confins da mente. Em Vibrações de Prata, fragmentou ainda mais essa matéria, criando um espaço sensorial ampliado e fortificado que, sem esforço, derrete sentidos e liberta o espírito como poucos. Perante tão elevada fasquia, a curiosidade em torno do passo seguinte aumentava naturalmente.
E Kissom voltou a surpreender. Concebendo novas expressões e abordagens inéditas, evidencia desde logo a prevalência do ritmo como elemento indutor — a pulsação cardíaca de um corpo. Parece acentuar as toadas de micromelodias que circulam pelas dez luas deste céu aberto de XEXA: um portal para a memória e a fantasia que a música pode, e deve proporcionar ao comum mortal. Uma peça essencial numa obra já de si tão coerente, incessante e libertadora. Um mundo em eterna reverberação.
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