Os meses inquietos que emolduram o silêncio desses dias, derramam o tempo entre si. Luz e sombras apressavam as estações enquanto o meu corpo se contorcia nos lençóis. A memória servia-se da imaginação para materializar a realidade – o lá fora, a normalidade, um corpo integrado no próprio espírito e em si. Eu respirava devagar para não me aperceber dos pensamentos autónomos que não precisavam da minha compreensão. A palavra era uma sensação que me pesava na língua. O meu corpo só se mexia entre o seu olhar estanque e o reflexo turvo do final do dia, enquanto eu ouvia com atenção o relógio oco daquele sol gordo e avermelhado que badalava um abismo opaco e profundo que me prometia deixar descansar.
Anoiteceu e clareou aquela dor que eu tinha medo de enunciar: dizer-lhe lembrava-me estremecida, lembrava-me do meio da noite ensopada de sussurros, do início do dia vazio de propósitos. Aconteci-me muito no tumulto, e no soluço do suspense entornei-me no fim do espectro. A médica disse que eu tinha de esperar. Esperei nessa beira do extremo, balançando os pés fora do altar e aí, nesse tropeço do concreto, o nevoeiro por si só começou a dissipar revelando o reencontro da pele.
A vida devagarinho beijou-me no pescoço para me acordar.



