As Flores
2025, 62′
Através das quatro estações de um ano, uma praça no centro de Lisboa transforma-se. A repetição dos dias é observada através das quatro janelas de um quiosque de rua. As Flores usa o espaço do quiosque como dispositivo fílmico; ancorado no lugar, virado para o exterior, central e panorâmico. A partir de planos fixos sempre filmados a partir do interior do quiosque, encontramos um panóptico invertido, uma torre de vigia. As figuras aparecem e reaparecem, os gestos repetem-se, as rotinas consolidam-se, bem como as suas rupturas – o alcatroamento da rua, a pintura do marco do correio, a poda das árvores, uma rusga, o turismo.
Há 10 anos desci a Rua de São Marçal em direcção à Praça das Flores, onde passei um ano dentro de um quiosque com o telemóvel pousado dentro de um copo transparente a servir de tripé. As imagens que filmei foram todas publicadas no @aneladamosogarff e numa segunda-feira de Abril, quase todas apagadas. Passei milhares de horas dentro daquele quiosque a servir pessoas e a ver o tempo a mudar. A ocupação do espaço público por quem o habita e o trabalha é um gesto de resistência à privatização do que é comum. O filme começa e acaba com os corpos das pessoas que trabalham e trabalharam ali: nas paredes, na farmácia, na calçada, na óptica, nas árvores, no supermercado, na estrada de alcatrão, nos prédios e no quiosque. Pelo meio, aqueles que por lá passaram com as suas palavras e os seus gestos, as suas dores, raivas, alegrias e paixões. As imagens que filmei surgem de um corpo que se manteve imóvel num lugar, durante um ano, a olhar e a ser olhado. Não é um filme sobre um lugar, é um filme de um lugar.
⟡
Polido é um músico e artista de Marinha Grande.
A partir de uma abordagem materialista ao som, Polido trabalha questões relacionadas com a memória cultural, a tradição, a tecnologia sonora e as articulações entre a história da música e a sociopolítica.
A música, unida por um vocabulário pessoal, reúne narrativas surreais para espaços concretos.
O trabalho surge sob a forma de concertos, misturas, performances, textos, palestras, sessões de audição ou instalações para contextos europeus como Batalha – Centro de Cinema, ICA Londres, 12.ª Bienal de Berlim, MAAT, Sismógrafo, NTS Radio, Sonsbeek 20->24, Ruhr Ding e Spirit Shop.
Polido dirige a editora Projecto de Vida, através da qual organiza noites de música e conversação.
A sua música foi publicada pelas editoras ANA, Holuzam, Bus Editions, Lynn, Left Alone e c-.
Paralelamente, colabora com outros artistas e cineastas na pós-produção sonora de filmes como designer de som e misturador
e é atualmente professor convidado na Escola de Artes da UCP, no Porto.



