João Sousa começou muito novo a divulgar a sua música. Mais novo do que se possa imaginar, sobretudo quando se pensa no quanto já fez, desde quando o faz e que caminha para quase duas décadas disto. Prolífico e generoso, pela forma como vai divulgando a música nas plataformas digitais e faz chegar temas em momentos inesperados, entre uma necessidade de mostrar a inspiração e a vontade de estar vivo. A música de João enquanto Coelho Radioactivo sente-se como uma batalha contra qualquer coisa.
Anti-Ontem, o álbum que vem apresentar à Zé dos Bois, foi pensado ao longo de uma década. Nessa década, editou outros discos, apresentou outras canções, mas a ideia destas andavam por lá, como uma espécie de algo que um dia se iria compor, fazer sentido. Como se as canções tivessem vida, vontade própria (bom, e não têm?), à procura de um grupo para falarem, estarem. João Sousa queria dar-lhes essa vida, deixou-as pousadas, a respirar, à procura de um momento para o encontro — e reencontro — destas com outras que caminhariam no mesmo sentido. São canções também trabalhadas ao sabor de uma ideia de álbum, que foi mudando ao longo do tempo, contudo, absorvendo influências da música que ia ouvindo e que se justificava seguir: Grouper, Jenny Hval, Weyes Blood, Arthur Russell e Mark Hollis.
Canções acústicas assombradas por sons que existem entre o nevoeiro e um desespero solitário, numa temperatura amena que impossibilita ouvir-se estes sons como sons de desespero. São sons de maturidade, de um músico a compreender que certas ideias vivem para lá do presente, na certeza da continuidade e da recompensa do tempo, o tempo enquanto artesão da articulação e da transformação de ideias. Coelho Radioactivo procurou algo absoluto no prolongamento da existência, da sua, das suas ideias, das suas canções. E conseguiu isso e algo mais neste Anti-Ontem.
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