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Parágrafo

— Exposição individual de Marco Franco

20.05 — 31.08.20
Galeria Zé dos Bois

De acordo com as medidas de segurança recomendadas só será possível visitar a exposição mediante a utilização de máscara.

Em Paterson, o filme de Jim Jarmush, um motorista de autocarro chamado Paterson repara na prodigiosa proliferação de gémeos na cidade suburbana de Paterson, New Jersey. Depois do seu caderno de poemas ser destruído pela mandíbula do bulldog ciumento da namorada, Paterson pensa em desistir da escrita. Junto à cascata de Passaic cruza-se com um poeta japonês fã de William Carlos Williams em peregrinação aos cenários do poema épico Paterson de 1926. “Às vezes a página em branco apresenta mais possibilidades”, diz o poeta japonês quando oferece ao poeta Paterson um caderno novo.

Ao desocupar os antigos escritórios de uma empresa de duplicação, no centro de Lisboa, Marco Franco encontrou um tesouro improvável: um lote de papel técnico obsoleto em branco. Neste espaço fechado há mais de 30 anos, a falência tinha protegido do uso e da luz a superfície química que dá a estes papéis uma textura, cor, e um cheiro avinagrado, particulares.

Em noites de insónia, Marco converte a mesa de refeições da família em bancada de trabalho para estudar a reacção destes papéis ao traço e à mancha. Os efeitos cromáticos da caneta de feltro sobre as cores vagas do papel repromaster, o contraste da tinta da china contra a superfície plástica ultra brilhante do papel de acetato, as possibilidades cinéticas do arrastamento da Betadine no verso da folha auto-copiativa.

Franco vai descobrindo na experiência do desenho um sistema serial de escrita sem significação. Com a disciplina de um monge copista, replica o mesmo gesto dezenas de vezes até o memorizar com o corpo, até se tornar numa verdadeira máquina de desenho, capaz de repetir um padrão, ajustá-lo a diferentes escalas e suportes, capaz até mesmo de calcular o seu índice de produção. Uma soft machine que multiplica o primeiro gesto intuitivo que dá origem ao desenho.

O percurso de Marco Franco induz-nos a ler os seus desenhos como notações musicais. Mas em vez de instrucções para um intérprete eles são registos de movimento e de tempo – tal como os anéis do tronco da árvore são o registo do tempo do seu movimento vertical.

Dias antes da inauguração da sua primeira individual na galeria Zé dos Bois, Marco foi à feira da ladra à procura de um novo lote de papel em branco. Acabou por comprar uma imagem bem conhecida: Sancho Pança no burro e o cavaleiro D. Quixote a cavalo, filiformes ao sol. A moldura simples de madeira escura, a tinta negro-esverdeada e o papel de algodão francês picado do fungo, davam a sensação fidedigna de um original. No verso a inscrição: “3/339”. Que sorte! encontrar num belo papel traços do Picasso. E afinal de contas, este desenho tem andado perdido … diz-se que o original era feito numa aguada azul escura, quase esverdeada…

Dois meses depois da última feira em que os achados valiosos ainda se misturavam com os germes no chão da cidade, a Zé dos Bois reabre para apresentar Parágrafo, a escrita ao lado (da música) de Marco Franco.

Ana Baliza

Marco Franco

Marco Franco (1972, Lisboa) é músico compositor e artista visual autodidata. Iniciou o percurso musical no ano 1986, com passagens pelo rock e pelo jazz, colaborando e gravando como percussionista em multiplos projectos. Entre 2006/2011 gravou dois álbuns do seu grupo Mikado Lab e, em 2017, editou “Mudra” para solo de piano. Colaborou e criou música para teatro, dança e cinema.

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