Esta obra parte da evocação de um contexto esterilizado e cirúrgico enquanto espaço de transformação. Tradicionalmente associado à correção, ao controlo e à procura de um ideal normativo, este universo é aqui reapropriado como território de possibilidade e emancipação. Metal, suturas, o frio de uma maca, o gesto de abrir as pernas perante um instrumento que nunca foi feito para o prazer. Estes são os materiais de STERILIZED FOREPLAY: uma marquesa, uma cadeira de observação clínica, um dispositivo ginecológico, um objeto fetichista. Carregados de um forte historicismo, estes objetos remetem para práticas que, ao longo do tempo, incidiram diretamente sobre o corpo feminino. Nomeadamente no contexto de tratamentos de beleza, práticas abortivas, da contracepção e de outras formas de intervenção ginecológica. Não são meros instrumentos: transportam memórias de controlo, de clandestinidade, de sofrimento e de disputas em torno da autonomia do corpo da mulher. A precisão dos seus contornos, a dureza dos materiais e a aparente neutralidade da linguagem clínica contrastam com a violência e a vulnerabilidade inscritas na sua história. Estes elementos, tornam visível a tensão entre as relações de poder que determinaram e continuam a determinar, o comportamento feminino e a sua mercantilização e codificação. Aqui, a artista joga com a memória dos objetos, através de um jogo esterilizado.
Texto de Pedro Willian Barros



