ZDB

Transdisciplinar
segundas na z

Sterilized Foreplay ~ segundas na z

— por Sofia Bessa + pudeur

seg21.09.2621:00
Galeria Zé dos Bois


Sofia Bessa - sterilized bodies
pudeur

Esta obra parte da evocação de um contexto esterilizado e cirúrgico enquanto espaço de transformação. Tradicionalmente associado à correção, ao controlo e à procura de um ideal normativo, este universo é aqui reapropriado como território de possibilidade e emancipação. Metal, suturas, o frio de uma maca, o gesto de abrir as pernas perante um instrumento que nunca foi feito para o prazer. Estes são os materiais de STERILIZED FOREPLAY: uma marquesa, uma cadeira de observação clínica, um dispositivo ginecológico, um objeto fetichista. Carregados de um forte historicismo, estes objetos remetem para práticas que, ao longo do tempo, incidiram diretamente sobre o corpo feminino. Nomeadamente no contexto de tratamentos de beleza, práticas abortivas, da contracepção e de outras formas de intervenção ginecológica. Não são meros instrumentos: transportam memórias de controlo, de clandestinidade, de sofrimento e de disputas em torno da autonomia do corpo da mulher. A precisão dos seus contornos, a dureza dos materiais e a aparente neutralidade da linguagem clínica contrastam com a violência e a vulnerabilidade inscritas na sua história. Estes elementos, tornam visível a tensão entre as relações de poder que determinaram e continuam a determinar, o comportamento feminino e a sua mercantilização e codificação. Aqui, a artista joga com a memória dos objetos, através de um jogo esterilizado.

Texto de Pedro Willian Barros

Sofia Bessa

Sofia (2002) trabalha entre a escultura, a instalação, o som e a performance. O seu trabalho é obcecado por erotismo e fetichismo. Em sua prática, ela reimagina relações e corpos num mundo . disruptivo A sensação de liberdade e a adrenalina são o seu mote. Ela propõe uma forma de erotismo feminino fundamentada na autonomia, na presença e no prazer, em detrimento da restrição e da conformidade. Utiliza o fetichismo e o feminismo como duas vias somáticas de conexão e de descoberta de expressões simbólicas e corporais. O som desempenha um papel central em sua prática; ela coleciona gravações, quase como um diário, especulando sobre prazeres: memória, identidade, passado e presente, sonhos e sensibilidade. A gravação de campo tornou-se algo muito íntimo em sua vida e obra. Tem um forte interesse, quase uma obsessão, pelo metal, tanto como material como fonte sonora mutável. Quase como um fetiche, ela descreve-o como um objeto inanimado fetichizado. Atraída, também, por sonoridades eletrônicas, ela utiliza sintetizadores modulares nas suas obras, criando composições que casam ruído e melodia e refletindo, de maneira não convencional, sobre a natureza da música. A sua prática é também cada vez mais direcionada pelo interesse no estudo do movimento, abordado sob a perspectiva da resistência. Ela explora o corpo em relação à duração, à repetição e ao esforço, concebendo o movimento não apenas como uma ação física, mas também como uma forma de produzir conhecimento e vivenciar a transformação. Sob essa ótica, a resistência torna-se tanto uma condição corporal quanto uma ferramenta conceptual, permitindo-lhe investigar os limites entre prazer e exaustão, controle e entrega, tensão e relaxamento.

pudeur

PUDEUR explora a obsessão pelo passado, as sexualidades dissidentes e a tecnologia obsoleta em diferentes formatos. Navega na cena subterrânea de Lisboa há mais de uma década através das artes visuais e curadoria de eventos.
No seu programa quinzenal 100PUDOR na East Side Radio, ouve-se queer punk, dark wave, electro industrial e post-punk – sons que traz também para pontuais DJ sets.

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