Sei de cor, par coeur, como é a sensação do tomate nas minhas mãos:
as fendas pequenas com uma faca sem serra que abro na pele para a arrancar sem ferir
a sua polpa-coração
a textura, às vezes mais líquida às vezes mais grumosa
o cheiro mais intenso e doce no verão
a polpa pigmentada cor de sangue a tingir a tábua que irei esfregar uma e outra vez.
Pensei e repensei este texto em frente à minha tábua. É o que faço, e talvez seja o que demasiadas de nós façamos, uma e outra vez, em frente à tábua.
Pensei na Lea, nos seus tomates coração e lembrei-me de uma descoberta marcante há uns anos: coragem vem de cor, latim para coração, e li em algum sítio que podia significar “contarmos com o coração a nossa verdade”.
Voltei a pensar nas peças da Lea: cantar com as mãos a verdade do coração.
texto de Rita Carolina Silva



