Artista de origem sul-coreana, assente entre Berlim e Praga, bela opera num complexo e cativante espaço de transformação. Entre visões e invocações, o ancestral e o visionário, o ruído e o silêncio, explora as múltiplas interseções possíveis entre estas aparentes dicotomias. Dissecando a tradição musical da sua terra natal, apodera-se de elementos estéticos e de memórias coletivas para os integrar numa moldura de gravuras texturalmente exuberantes. Sente-se o arranhão nas cordas, vocais e instrumentais, num ambiente inóspito, revelador de detalhes capazes de abrir brechas no chão. São composições sinestésicas e surrealistas, de carne e osso, que se alojam nos confins da consciência. Brilhante na gestão microtonal que frequentemente convoca, o som derrete-se e o metal respira numa experiência imersiva que, com notável fluidez, não cessa de sondar novos territórios.
Um dos melhores segredos deste ano chama-se Korean Love Sonnets. Documento sonoro intensamente vívido, centrado na voz, propõe um conjunto de mantras guturais, som em estado bruto e outras fantasias psicotrópicas envoltas em lava quente e fumegante. Trilhando caminhos sob a detonação de nomes como Wolf Eyes, Okkyung Lee ou Sunn O))), gere a tensão a partir de uma ótica indutora de um profundo estado de absorção emocional e sensorial. Do histórico Berghain ao não menos mítico Café OTO, passando por certames de referência como Rewire e Unsound, bela move-se sem fronteiras geográficas, estilísticas ou identitárias. Uma valente cartada na música exploratória dos nossos dias.
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