Crânio Impromptu
Brassalano Graça
Lisboa: Mercador Editorial, 2025
O homem negro busca na memória colonial
o fracasso do seu futuro
um futuro aprisionado nas masmorras
da sua imaginação,
no esgoto da sua falta de arrependimento
ou sentido de culpa,
o homem negro é hoje uma estrela morta
resiste como ruína de um sonho
numa noite que se eterniza
sobre os ombros dos náufragos de África.
Os poemas aparecem-me de modo inesperado. Surgem-me quando mais nada agita a cauda do vazio. Quando me sufoca a beleza do silêncio. Há neles mais instinto do que pensamento ou consciência. São pura sobrevivência. Neles não há optimismo, apenas desejo. Um desejo inerte como o silêncio que ocupam como erva daninha. Não possuem forma nem substância, resumem-se a ruínas e inércia. São do mato. São o corpo mutilado pelo desejo. São poemas concebidos sobre destroços sonoros do corpo oriundos da negrura trágica do DrumN’Bass, do Trance, do Jungle, ou do Free Jazz. São poemas construídos como ruídos e anomalias de corpos negros, entre pesadelos eróticos, feridas surreais, e gritos políticos. Torrenciais jorros de memórias enlameadas por angústias da máquina infernal de sonhos dos trópicos. Talvez esses poemas sejam uma tentativa de responder à pergunta – a Poesia pode salvar-nos? Talvez não nos possa salvar, mas de certeza que nos pode condenar. À clareza de nós próprios, a uma verdade subterrânea como os espinhos das sombras, ao perfume arrepiante das flores, à beleza maldita das Mulheres. Talvez nos possa condenar a uma errância pelas rotas crepusculares do amor. Condenar-nos a sermos intransigentes com a nossa insignificância.
Brassalano Graça



