Nascida em Paris, foi em Portugal que Ariel de Bigault deu início ao seu percurso cinematográfico com a realização de Mulheres em Luta (1977), documentário filmado em Super 8 e que retrata a mobilização de camponesas, operárias e trabalhadoras domésticas no rescaldo do 25 de Abril. Na década seguinte, e já depois de ter produzido, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Eduardo e Fernando (1981) e Estão a ver-nos? (1981), parte para o Brasil onde realiza Éclats Noirs du Samba (1987), série que mergulha nas raízes africanas de algumas das mais influentes correntes musicais do país, averiguando, concomitantemente, os processos de exclusão e discriminação que procuraram invisibilizar as comunidades afro-brasileiras. A sua preocupação com o universo cultural – e particularmente com o tecido africano ou afrodescendente que o compõe – será retomada em Afro Lisboa (1996), filme que conta com a participação de artistas como General D, Messias Botelho, Antónia Nascimento, Orlando Sérgio, Tony Tavares ou Mário Pereira. Na virada do milénio, desloca o olhar da capital portuguesa para Luanda com Canta Angola (2000), longa-metragem rodada num cenário ainda marcado pela guerra civil e que regista a criatividade musical do país pela mão e voz de alguns dos seus mais ilustres compositores e intérpretes. De regresso a Portugal, assina Margem Atlântica (2006), trabalho no qual revisita a efervescente cena cultural lisboeta recorrendo a testemunhos de músicos, escritores e atores cujos percursos pessoais e artísticos se entrelaçam, de formas distintas, com os continentes europeu e africano. Em 2020, estreia Fantasmas do Império (2020), obra que articula excertos fílmicos com reflexões críticas de modo a explorar as representações do imaginário colonial no cinema português do século XX. A par da sua atividade cinematográfica, dedicada, em grande medida, às sonoridades africanas e afrodiaspóricas, Ariel de Bigault desenvolveu também um notável trabalho de divulgação e preservação musical, sendo responsável pela edição discográfica de Antologia das Músicas de Cabo Verde 1959-1992 (2 CDs, 1995) e Músicas Urbanas de Angola 1956-1998 (5 CDs, 2000).