Conheci o Gita Cerveira há precisamente um ano quando, na primeira sessão do ciclo Uma Festa Para Viver – a propósito dos cinquenta anos da independência de Angola, este chegava à ZDB na companhia de Zezé Gamboa, realizador de Mopiopio (1991) – filme que íamos nesse dia exibir – e seu amigo de longa data. É claro que, por essa altura, já me encontrava familiarizada com o seu percurso, mas era, de facto, a primeira vez que via, “em carne e osso”, uma figura que havia adquirido um estatuto quase mítico para mim, tal era a frequência com que o seu nome pontuava os genéricos de muitos dos filmes que habitam o meu quotidiano. Nas poucas horas que passámos juntos, a falar sobre o seu trabalho com o Zezé, com o Ruy, com o Ole, entre outros, aquilo que mais me impressionou foi o seu riso fácil, a alegria contagiante com que narrava as aventuras e desventuras do cinema angolano. Antes de nos despedirmos, trocámos contactos, apalavrámos uma entrevista (ou conversa como ele lhe preferiu chamar). Esse diálogo ficou por acontecer, mas talvez este ciclo seja uma forma outra de o começar.
Sofia Afonso Lopes
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Gita Cerveira nasceu na Vila Alice, a 14 de maio de 1959. Em 1975, muito jovem ainda, junta-se aos quadros da então incipiente Televisão Popular de Angola (TPA) na qual frequenta uma formação ministrada pelo engenheiro de som Antoine Bonfanti que, juntamente com Marcel Trillat e Bruno Muel, se havia deslocado a Luanda no âmbito de um protocolo de cooperação estabelecido entre a produtora francesa Unicité e a estação televisiva angolana. Ainda na década de setenta e no país recém-independente, ocupa-se frequentemente da captação de intervenções de dirigentes políticos – uma fotografia impressa na obra Angola, O Nascimento de uma Nação (2015), organizada por Jorge António e Maria do Carmo Piçarra, mostra-o, com a sua Nagra, no registo de um discurso de Agostinho Neto proferido em Ícolo e Bengo. Nessa altura, dá também início à sua carreira cinematográfica, participando na rodagem de A Luta Continua (1977) de Asdrúbal Rebelo e Bruno Muel, Carnaval da Vitória (1978) de António Ole, Leão da Saudade (1978) de Naná, bem como em vários episódios do decálogo Presente Angolano, Tempo Mumuíla (1979) de Ruy Duarte de Carvalho.
Nos anos oitenta, viaja para Paris onde conclui um curso de engenharia de som na Neciphone. A partir desse período, o seu trabalho espraia-se por múltiplas geografias tendo sido responsável pelo som nos filmes Balada da Praia dos Cães (1986) de José Fonseca e Costa, Le trésor des îles chiennes (1990) de F.J. Ossang, O Último Mergulho (1992) de João César Monteiro ou The Man Who Drove With Mandela (1998) de Greta Schiller, entre muitos outros. Foi também colaborador assíduo de Manoel de Oliveira (O Meu Caso [1986], ‘Non’ ou a Vã Glória de Mandar [1990], A Divina Comédia [1991], O Dia do Desespero [1992]).
Na virada do milénio e de novo em Angola, assina o som das longas-metragens Canta Angola (2000) de Ariel de Bigault, Na Cidade Vazia (2004) de Maria João Ganga, Comboio da Canhoca (1989/2004) de Orlando Fortunato e O Herói (2004) de Zezé Gamboa, com quem voltará a colaborar em O Grande Kilapy (2012). No continente africano, trabalha igualmente em diversas produções sul-africanas, entre as quais se destacam Zulu Love Letter (2004) de Ramadan Suleman, Nelson Mandela: The Myth and Me (2013) de Khalo Matabane, Impunity (2014) de Jyoti Mistry ou Mandela’s Gun (2016) de John Irvin. Em Moçambique, exerce funções nos filmes Virgem Margarida (2012) de Licínio de Azevedo, AvóDezanove e o Segredo do Soviético (2019) de João Ribeiro ou O Ancoradouro do Tempo (2024) de Sol de Carvalho. Nas ilhas de Cabo Verde, participa na sonoplastia de Tarrafal – Terra Longe (2025) de Zezé Gamboa e Aleluia, o mais recente filme do realizador, ainda em fase de produção à data deste ciclo.
O desaparecimento físico do mais internacional dos técnicos angolanos – detentor de um currículo que lhe valeu uma homenagem na primeira edição do DOCLuanda, bem como a atribuição do Signis Award e do Prémio Sophia – deixa um vazio impossível de colmatar na paisagem cinematográfica contemporânea. Sem perder de vista a dimensão transnacional do seu trabalho, À Escuta de Angola com Gita Cerveira propõe revisitar parte da filmografia realizada no e sobre o país que o viu nascer, evidenciando o seu percurso por várias fases produtivas do cinema nacional e um trabalho indelevelmente marcado pela mestria que – na captação, direção ou mistura de som – sempre soube imprimir às obras a que ajudou a dar forma.
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*Desejamos expressar o nosso agradecimento a todos os realizadores e realizadoras que autorizaram a exibição dos seus filmes, bem como à Agência Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (ANICC) e à Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema pela sua colaboração neste ciclo. Agradecemos também à família e amigos do Gita pelo acolhimento desta homenagem e pela ajuda indispensável que prestaram na sua materialização.



