ZDB

Cinema

Ofícios ⟡ Makumukas

— Sessão #3 À escuta de Angola com Gita Cerveira

qui16.07.2619:00
Galeria Zé dos Bois


Fotografia de Rute Magalhães produzida durante a rodagem de 'Presente Angolano, Tempo Mumuíla' (1979).
Cartaz de 'Presente Angolano, Tempo Mumuíla' (1979), elaborado por Ruy Duarte de Carvalho a partir de uma fotografia de Rute Magalhães.
Ruy Duarte e a equipa durante a rodagem de 'Presente Angolano, Tempo Mumuíla' (1979). Fotografia de Rute Magalhães.

Sessão #3 do ciclo de cinema À escuta de Angola com Gita Cerveira programado por Sofia Afonso Lopes.

Todas as sessões decorrem às quintas-feiras, às 19h, na ZDB.

Ofícios (1979) e Makumukas (1979) de Ruy Duarte de Carvalho
(Doc., 29′ e Doc., 27′, respectivamente)
A sessão será seguida de uma conversa com Rute Magalhães, fotógrafa que acompanhou a rodagem dos filmes e que irá apresentar uma seleção de imagens produzidas nesse contexto.

Filmados na Chibia, em Junho de 1977, Ofícios (1979) e Makumukas (1979) integram a série Presente Angolano, Tempo Mumuíla (1979), composta por dez documentários.

Conforme preconizado pelo título, Ofícios retrata o exercício das funções especializadas na sociedade ovamwhila – oleira, ferreiro, kimbanda e cabeleireira –, cuja aquisição só se torna possível mediante a intervenção de um espírito «linhageiro», isto é, pertencente a um/a familiar falecido/a.

Rodado ao longo de oito horas consecutivas, Makumukas regista o rito de iniciação de uma mulher no culto de um espírito «estrangeiro» à comunidade, neste caso, o de um mukubal pertencente ao grupo vizinho dos ovaherero.

Não obstante o recurso à antropologia – disciplina da qual faz uso para devidamente fixar, tratar e valorizar elementos pertencentes a um quadro sociocultural distinto do seu –, Carvalho sempre se mostrou contrário à classificação destes materiais como etnográficos: “É cinema-documentário sobre a vida comum de concidadãos meus. É gente que vive num contexto e foi assim que foi filmado”. Produzidos numa altura em que o realizador volta a sua atenção para o Sul do país e para as populações que habitam o planalto da Huíla, estes filmes atestam a vitalidade do seu projeto visual e político que, desde o começo, descentrou o seu olhar sobre a nação, investindo em modos de cinema que se fazem nas margens.
(Sofia Afonso Lopes)

Rute Magalhães

Rute Magalhães nasceu no Porto, em 1944, mas foi em Malanje que passou a infância e parte da adolescência antes de se mudar para o Lubango para dar continuidade aos seus estudos no Colégio Paula Frassinetti. Na década de sessenta, ruma a Lisboa para frequentar o curso de Engenharia Química no Instituto Superior Técnico. Na capital, integra as secções editorial e cultural da Casa dos Estudantes do Império, organismo fundado pelo Estado Novo com o objetivo de acolher estudantes universitários provenientes das então colónias portuguesas e que, contrariando os desígnios do regime, se converteu em polo de mobilização anticolonial e independentista. Antes do encerramento da instituição em 1965, chega a traduzir comunicados do MPLA que depois eram enviados clandestinamente para Angola em caixas de sapatos. Em 1968, é detida pela PIDE por suspeita de «actividades subversivas», permanecendo em Caxias por duas semanas. No ano de 1974 e após ter completado a licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, regressa a Angola onde virá a desempenhar funções na Secretaria de Estado da Educação e da Cultura e, posteriormente, no Centro de Investigação Pedagógica e Inspecção Escolar (CIPIE) onde trabalhou na preparação de manuais e outros materiais de apoio para o ensino da disciplina de História. Em 1977, acompanha Ruy Duarte de Carvalho na rodagem do decálogo Presente Angolano, Tempo Mumuíla (1979) no Sul do país, produzindo, durante esse período, um corpus fotográfico que – ademais de ter servido como base para alguns desenhos de Carvalho – será, anos mais tarde, exibido pela autora, num gesto de revisitação motivado, segundo descreve, pelo “eco que o «estar mumuíla» ainda hoje tem em mim”. Sobre estas fotografias, o antropólogo e curador Nuno Porto escreverá que são “lentas, francas, cheias de detalhe, de acontecimentos que se foram fazendo até à composição de cada imagem para depois, independentemente dela, prosseguirem”. Posteriormente, frequenta o Centre d’Études Africaines da Universidade de Paris I – Sorbonne, onde desenvolve um projeto sobre a imprensa africana publicada em Portugal. Nesse contexto, e integrada num ambiente académico particularmente fecundo, cruza-se com investigadores como Jean Devisse e Alfredo Margarido, figuras de relevo no campo dos estudos africanos. De volta a Lisboa, completa um curso de fotografia e outro de cerâmica no Ar.Co. Desde então, tem vindo a desenvolver uma prática artística regular, apresentando o seu trabalho em variadas exposições.

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