Nascido em Luanda, em 1951, António Ole interessou-se pela produção artística desde tenra idade. É durante o período em que vive em Maiorca – aldeia portuguesa de onde são oriundos os seus avós paternos e na qual completou os três primeiros anos da escola primária – que se inicia no desenho, pela mão de uma tia formada em Belas-Artes. De regresso a Angola – onde, após a conclusão da quarta classe, frequenta o Liceu Salvador Correia – é introduzido à estética cubista e, em particular, às obras de Pablo Picasso, Georges Braque, Paul Klee e Fernand Léger, através de Eduardo Zink, artista plástico e seu professor de desenho. Em 1967, com apenas dezasseis anos, dá os primeiros passos no circuito artístico, participando em exposições coletivas. No ano seguinte realiza a sua primeira exposição individual, particularmente reveladora da influência da Pop Art e da banda desenhada no seu trabalho. Em 1970, por ocasião da sua participação no IV Salão de Arte Moderna de Luanda, é distinguido com o Prémio Aquisição. Pouco depois, e após a conclusão dos estudos secundários, retorna a Portugal, desta feita rumo a Lisboa com o intuito de ingressar no curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes. Confrontado com a situação sociopolítica da então metrópole – na qual se multiplicam revoltas estudantis e protestos que levaram ao encerramento da instituição – acaba por regressar a Angola, onde mantém, ainda assim, vivo o interesse pela arquitetura. Em Luanda, trabalha com profissionais da área como José Deodoro Troufa ou Vasco Real, juntamente com quem envida esforços no sentido de pressionar as autoridades coloniais para a criação de uma faculdade de Arquitetura na capital – uma aspiração apenas consumada após a independência do território.
Em 1975, dá início ao seu percurso cinematográfico, integrando os quadros da Televisão Popular de Angola (TPA), à data dirigida por Luandino Vieira. É nesse organismo que realiza os seus primeiros filmes, entre os quais se contam Ferroviários do Caminho de Ferro de Malanje (1975) – curta-metragem pertencente à série coletiva Sou Angolano, Trabalho com Força –, Resistência Popular em Benguela (1975) e Aprender Para Melhor Servir (1976), obras fortemente marcadas pelo interesse do cineasta nos processos de transformação política e social do pós-independência. Em 1977, estreia FESTAC (1977), documentário produzido no âmbito do Segundo Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas, realizado na Nigéria. No ano seguinte, assina Carnaval da Vitória (1978), audiovisual que acompanha os primeiros festejos carnavalescos numa Angola independente, e O Ritmo do Ngola Ritmos (1978), longa-metragem que retrata o papel do grupo musical Ngola Ritmos na luta anticolonial clandestina, bem como o seu contributo para a formação da música popular angolana. O destaque conferido a Liceu Vieira Dias, um dos fundadores do grupo e reconhecido simpatizante da «Revolta Activa», traduziu-se na censura do filme que permaneceu retido por onze anos. Não obstante a proibição de exibição do material – um episódio que descreve em grande detalhe, numa entrevista concedida a Isabel Carlos – Ole prossegue o seu percurso cinematográfico com a estreia de No Caminho das Estrelas (1980) e de Conceição Tchiambula, Um Dia, Uma Vida (1982). Importa sublinhar que toda esta filmografia precede a sua formação cinematográfica formal. Com efeito, é apenas após a realização de Conceição Tchiambula que estuda cinema, primeiro no departamento de estudos afro-americanos da UCLA e, mais tarde, no Centre for Advanced Studies do American Film Institute, período durante o qual capta as imagens de New Orleans, Mardi Gras que permanece inacabado. De regresso a Angola, vê-se confrontado com a quase total paralisação das estruturas de cinema, realizando, ainda assim, Sonangol, 10 Anos Mais Forte (1987). Dedica-se, depois e a tempo inteiro, à pintura, à fotografia, à escultura e à instalação, áreas nas quais consolidará uma das mais relevantes trajetórias artísticas da contemporaneidade. Daí em diante, a sua obra circula por alguns dos mais prestigiados circuitos, marcando presença na Bienal de Veneza ou na Documenta e sendo exposta em instituições como o Museum of Modern Art (MoMA) e o Tate Modern, entre outras. Já em 1985, Ruy Duarte escrevia: “Tenho para mim que o António Ole, com a sua pintura, é quem vai à frente”. Quatro décadas depois, só nos resta confirmar a justeza dessa intuição.
Sofia Afonso Lopes